O descaso Cidade dos Meninos

Histórico da Cidade dos meninos

Era uma vez, nos idos de 1934, a então primeira dama D. Darcy Vargas, implementou, em uma área de 20 milhões de metros quadrado ( 2000 hectares), no que antes era conhecido como Núcleo São Bento oriundo de uma sesmaria concedida a frades beneditinos, um projeto de albergue para meninas desvalidas. Nele haveria pavilhões para moradia, escolas, cursos profissionalizantes, a medida em que as meninas se tornassem adultas, obteria casa ali mesmo e seriam o núcleo de novos grupos de 20 meninas cada. Em 1943, o Presidente Getulio Vargas criou a fundação Abrigo Cristo Redentor e em 1947, D. Darcy Vargas entregou o albergue para direção de Levi Miranda, desta fundação. Este teria transferido as meninas para a escola quinze, fora do complexo, e transformou o lugar em cidade dos Meninos, com a construção de novos pavilhões, padaria,escola de pescas, oficinas de marcenaria, cestaria, mecanica,vassouraria, etc. para a educação profissionalizante de meninos e rapazes, que lá residiam em regime de internato. ( as meninas passaram a ficar só ate completarem 12 anos, no instituto Provedora Margarida de Araújo. Havia na cidade dos meninos mais três institutos - Instituto Nossa Senhora da Paz, Instituto Dom Bosco, Instituto Profissional Getulio Vargas, onde os meninos ficariam ate completar 18 anos. Alem destes institutos, havia na Cidade dos Meninos mais duas escolas, uma da rede estadual e outra da rede municipal, que atendiam não apenas as crianças internadas, mas também aos filhos dos funcionários que lá moravam. Em 1949, Mário Pinotti, diretor do antigo Serviço Nacional de Malária ( e que depois viria a ser, entre 1955-60, ministro de saúde de JK), pediu o uso de metade da Cidade dos meninos e ganhou 08 pavilhões, inicialmente utilizado para bioterio, necrotério, laboratório, restaurante e administração do Instituto de Malariologia, A partir desta época, a Cidade dos Meninos passou a Ter três categorias de habitantes os meninos abrigados nos quatros institutos, os funcionários da cidade dos meninos e os funcionários federais de saúde, do instituto de malariologia, que ocupavam casas a eles cedidas(casas brancas com janelas azuis para os funcionários do abrigo Cristo Redentor e marrom com janelas vermelhas, na vila Mário pinotti, para os funcionários da malária) Alem destes, freqüentavam a área as professoras da rede publica de ensino, que ali lecionavam.
Em 1949, uma químico holandês, Henk Kemp, detentor do processo industrial de fabricação de HCH por catalise química a baixa temperatura, visitando a Cidade dos Meninos, deu a idéia a Mário Pinotti para ali se produzisse o vulgarmente denominado po-de-broca, ou Hexaclorociclohexano (HCH), incorretamente referido como BHC (benzene hexachloride --em inglês) um composto de benzeno.

O HCH e um pesticida organoclorado, isolado por Faraday em 1825, que teve suas propriedade inseticidas descobertas em 1942, na Franca e na Inglaterra, seu isomero, gama HCH recebeu o nome de Lindano, em homenagem a Van der Linden, seu descobridor. O gama-HCH ou Lindano, e um inseticida de amplo espectro usado para tratamento de sementes, solo, aplicação sobre folhas, em florestas, material orgânico guardado, em animais e na saúde publica, ainda de acordo com o IPCS, seu uso tornou-se restrito em alguns países e totalmente proibido no Japão, desde 1971. No Brasil, teve sua utilização na agricultura proibida desde 1985, mas continua sendo utilizado em campanhas de saúde publica, na tentativa de erradicação e/ou controle de vetores de doenças transmissíveis e endêmicas.

Em 1950 a fabrica foi então inaugurada na Cidade dos Meninos juntamente com uma fundição de gelo, usado para fundir o cloro ao benzeno- o discurso de inauguração do ministro Pedro Calmon, então ministro da Educação e Saúde do Presidente Eurico Gaspar Dutra. Durante cinco anos, o HCH foi produzido, utilizando como matérias primas o benzeno, fornecido pela Companhia Eletroquimica Fluminense, de São Goncalo. Alem do HCH, a fabrica também desenvolvia pesquisas com outros pesticidas como o arsenito de cobre, também conhecido como verde Paris e o tricloro bis(clorofeniletano) ou DDT. Contudo, em torno de 1955, a Companhia Eletroquimica Fluminense deixou de produzir o cloro, que passaria a ser fornecido pelas empresas Matarazzo, de São Paulo, o que comprometia a produção do HCH, face ao auto custo e risco de transporte. Alem disso, o Lindano (gama-HCH) passou a ser oferecido a baixo custo pelas empresas Elclor e também pelas empresas Matarazzo, tornando antieconômico o funcionamento da fabrica.

Que em 1956, foi criado pelo Ministro da Saúde, Prof. Maurício Medeiros, o Departamento Nacional de Endemias Rurais (DNERu), dirigido pelo Dr. Mário Pinotti, e seu Serviço de Produtos Profiláticos, dirigido pelo Brigadeiro Dr. Gerardo Majella Bijos, querenomeou a fabrica da Cidade dos Meninos de Fabrica de Produtos Profiláticos, fazendo-a funcionar ate agosto de 1960, produzindo pasta de DDT, pasta de BHC (isomero alfa, enriquecido com gama-HCH) emulsionáveis - DDT, mosquicidas - DDT + Lindano ( gama-HCH) rodenticidas, composto 1080 (monofluoroacetato de sódio) e cianeto de cálcio.

Segundo o relatório final de gestão do brigadeiro Dr. Bijos teriam restado em estoque, em janeiro de 1961, com a cessação definitiva das atividades da fabrica, os seguintes produtos, 240.760 rodenticidas-112.407 litros de Triton X-151, 109 tambores de Xilol, e grande resíduo de produção de Po anti-culex(BHC). Quanto de material toxico efetivamente sobrou na cidade dos meninos e incerto. Os moradores falam em 400 toneladas de pó de broca, reportagem de jornais entre 300 e 350 toneladas, Considerando que a produção mundial de lindano em 1984 foi de 5 mil toneladas, 350 toneladas abandonada na década de 50 significaria 7% de toda a produção mundial do ano de 1984, o que seria exagerado.

A fabrica foi sendo depredada entre 1870 e 1980, e os toneis de papelão nos quais o chamado BHC estava acondicionado se romperam com o tempo e foram se infiltrando pelo solo.

O processo de desativação da fabrica da Cidade dos Meninos não foi controlado e todo acervo foi abandonado no local, incluindo moveis, maquinaria, estoques de HCH, matérias-primas e subprodutos. A ma administração desse processo de desativação deixou que cerca de 300 toneladas de produtos tóxicos fossem largamente disseminados de forma heterogênea por toda a área.